O Coronavírus e a Melhoria Contínua Industrial

Vivemos um mundo de profundas transformações, agora têm a covid-19.
O mundo industrial nunca mais será o mesmo!

Em dezembro de 2019, o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) da China, identificou um surto de doença respiratória em trabalhadores de um mercado de alimentos de Wuhan. Posteriormente, identificou-se como causador da doença um novo coronavírus, chamado de Covid-19. Em 11 de março de 2020, a Organização Mundial da Saúde – OMS declarou a Covid-19 uma pandemia global.

Março será lembrado para sempre na história da humanidade como um momento nunca vivido. A pandemia da covid-19 colocou em poucas semanas um terço da população mundial em isolamento social. O surto da doença provocada pelo novo coronavírus, não é apenas uma crise global da saúde, mas afeta também o comportamento das pessoas, do comércio e da economia globais. Seu impacto está crescendo e será sentido no curto e no longo prazo em todos os países.

Photo by Matthew Henry from Burst

Todos os setores da sociedade foram afetados pelo surto, incluindo a comunidade industrial das empresas brasileiras, como uma crise inusitada, para todos os ramos de atividade industrial e humana.

Segundo pesquisas da Confederação Nacional da Indústria (CNI), todas as fábricas de automóveis, motocicletas, caminhões, ônibus, e peças do país tiveram a paralisação anunciada. 70% das empresas do segmento têxtil e de confecção também pararam a produção. As indústrias de alimentos, aves e suínos do Brasil não cortaram a produção, mas algumas anunciaram redução de abate em meio a problemas logísticos.  

A experiência nos trabalhos de consultoria ao longo dos anos permite afirmar que todas as crises já vividas no Brasil, como a peste suína africana, a gripe aviária e a crise financeira de 2018, são certamente mais regressivas para as empresas que ficam estáticas diante das crises e param de investir na melhoria dos produtos, processos e pessoas, apesar das consequências imprevisíveis para a área industrial pós-coronavírus.

Um provérbio oriental, diz que:

“Homens fortes criam tempos fáceis e tempos fáceis geram homens fracos, mas homens fracos criam tempos difíceis e tempos difíceis geram homens fortes”.

Photo by Christian Murillo from Burst

Jeff Bezos, CEO da Amazon, conta que as pessoas frequentemente perguntam “O que vai mudar nos próximos 10 anos?” E diz nunca receber a pergunta: “O que não vai mudar nos próximos 10 anos? 

Particularizo esta questão para a área industrial pós-covid-19, e especialmente para a gestão de ativos dos vários segmentos empresariais:

O que não vai mudar na Indústria nos próximos 10 anos?

 

 1.Os clientes da produção desejarem paradas zero de equipamentos.
 
2. A manutenção monitorar seus equipamentos à distância e utilizar abundantemente a realidade aumentada e a manutenção prescritiva.
 
3. A necessidade de pronto atendimento às melhorias contínuas e inovação nos processos produtivos.

4. A indispensabilidade de mão de obra mais bem qualificada e com valores elevados.

5. A meta de baixar os custos industriais e em especial a manutenção dos ativos.

É importante lembrar que até meados de fevereiro de 2020, nas palestras, cursos e congressos realizados, a comunidade industrial das empresas discutia os grandes avanços tecnológicos do mundo, com as convergências de tecnologia da manufatura avançada, Indústria 4.0 ou Quarta Revolução Industrial, permitindo um mundo melhor, para revolucionar as nossas vidas nas mais diversas áreas, como a  manufatura aditiva; big data; internet das coisas; robôs autônomos; busca de  maior foco em sustentabilidade e meio ambiente; veículos autônomos; carros voadores; dezenas de promessa de aumento da expectativa de vida com soluções inovadoras farmacêuticas e biotecnológicas; e, acesso ao capital, levando ao investimento em ideias empreendedoras arrojadas nas startups, que por sua vez, aceleram a inovação de forma exponencial.

Photo by Nicole De Khors from Burst

As empresas que continuarem a investir em tecnologias da Indústria 4.0 e projetos de melhoria contínua na gestão de ativos, podem reinventar os seus processos neste período de parada do parque produtivo, além de reduzir os riscos de contaminação do covid-19. 

Este momento de parada compulsória e isolamento social, deve exigir também o menor número de pessoas da manutenção no chão de fábrica, sendo necessário trabalhar no aumento da confiabilidade dos equipamentos.

A fim de atender a essas necessidades, a empresa deve trabalhar na gestão estratégica da manutenção, com os conceitos da ABNT ISO 55001 – Gestão de Ativos.

Gestão de Ativos não é o mesmo que Gerenciar Ativos!

 A  gestão de ativos tem foco no que os ativos podem trazer para a organização, e gerenciar ativos tem foco no que as organizações podem fazer pelos seus ativos.

Gestão de ativos é o conjunto de atividades coordenadas que a organização usa para obter valor a partir dos ativos na entrega dos seus objetivos ou resultados. A obtenção de valor normalmente requer um equilíbrio entre custo, risco, benefícios e desempenho desejado dos ativos, para alcançar os objetivos organizacionais. Pode ser necessário considerar este equilíbrio em diferentes escalas de tempo.

Um ativo é um item, algo ou indivíduo que tem valor real ou potencial para uma organização. Creio que o valor irá variar entre diferentes organizações e suas partes interessadas pós-coronavírus, e pode ser tangível ou intangível, financeiro ou não financeiro.

Os ativos fixos das empresas, como as máquinas, veículos, estoques e seus edifícios, representam apenas uma das cinco categorias de ativos. As outras categorias são ativos humanos, de informação, financeiros e ativos intangíveis, como segurança das pessoas e dos bens, riscos minimizados ou controlados, marca, reputação, moral, propriedade intelectual, ética e sustentabilidade do negócio.

Após a covid-19, teremos grandes mudanças.

Mas a discussão e implementação da Quarta Revolução Industrial, projetos de Inovação e Melhoria e, Sistemas de Gestão de Ativos com a Norma ABNT ISO 55001, para a excelência das organizações exponenciais não vai mudar, pois traz, entre outros, os seguintes benefícios para a área industrial das empresas:

  1. Integração do plano estratégico de gestão de ativos (SAMP – Strategic Asset Management Plan) da organização, como seus planos financeiros de longo prazo, permitindo o equilíbrio das necessidades financeiras de curto prazo com as necessidades de planos de atividades de médio prazo e com os planos de muito mais longo que alguns ativos requerem.
  2. Conectividade global, com tendência de baixíssimo custo com o lançamento do 5G, permitindo a comunicação em qualquer lugar, com baixo custo, e a conexão de milhares de equipamentos;
  3. Realidade aumentada e web espacial em todo lugar, permitindo o gerenciamento em tempo real dos equipamentos, com redução de falhas e aumento da disponibilidade na produção;
  4. Inteligência de tudo, com a explosão de sensores microscópios e chips específicos de baixo custo, fazendo com que todo equipamento se torne inteligente;
  5. Atingir o máximo desempenho humano com a IA, onde os algoritmos da inteligência artificial e ferramentas de aprendizado por máquinas cada vez mais opem source e dispositivos nas nuvens, permite a cada indivíduo com a conexão à internet ampliar a capacidade cognitiva e aumentar a habilidade de resolver problemas, etc.

Em seu livro “A Quarta Revolução Industrial”, Klaus Schwab, fundador e presidente executivo do Fórum Econômico Mundial, afirma:

“Estamos no início de uma revolução que alterará profundamente a maneira como vivemos, trabalhamos e nos relacionamos. Em sua escala, escopo e complexidade, a Quarta Revolução Industrial é algo que considero diferente de tudo aquilo que já foi experimentado pela humanidade”.

Para a ABNT ISO 55001 – Gestão de Ativos, as ações preventivas, que podem incluir ações preditivas, são aquelas tomadas para tratar a causa-raiz de potenciais não conformidades ou incidentes, como uma medida proativa, antes que tais incidentes ocorram.

Para a excelência operacional, pós-coronavírus, devido a paralização da produção, convém que a organização estabeleça, implemente e mantenha os processos para iniciar ações planejadas de manutenção preventivas e preditivas dos seus ativos fixos.

Entre os elementos a serem considerados no estabelecimento e manutenção dos ativos fixos em seus processos, a organização deve:

  1. Buscar e usar fontes de informação apropriadas para o chão de fábrica, considerando segurança, custo, prazo, qualidade e produtividade.
  2. Identificar quaisquer falhas potenciais.
  3. Usar metodologia adequada de confiabilidade e análise de falhas.
  4. Iniciar a implementação de ações preventivas e preditivas.
  5. Registrar quaisquer mudanças nos processos e procedimentos resultantes de ação preventiva e preditiva.
  6. Avaliar as ações preventivas e os relatórios de inspeção preditiva.
  7. Entrar com planos de gestão de ativos a partir das ações planejadas.
  8. Manter informações documentadas sobre as ações preventivas e preditivas.

A manutenção preventiva aplicada no Sistema de Excelência Operacional da empresa, em conformidade com a ABNT ISO 55001, é a ação para eliminar a causa de uma potencial não conformidade na máquina ou outra situação potencialmente indesejável. Pode existir mais de uma causa para uma não conformidade potencial.

A ação preventiva uma vez estabelecida na organização nas ações pós-coronavírus deve ter caráter obrigatório.

É importante avaliar a confiabilidade dos ativos fixos, discutindo a causa raiz da falha que provocou a manutenção corretiva, na retomada de produção, avaliando as barreiras de proteção (defesa) do ativo para a falha, como ilustra a figura anterior, e responder as seguintes questões:

  • Quais os “furos” no mecanismo de defesa, que permitimos?
  • Aonde falhamos na manutenção preventiva e inspeções preditivas?
  • Quais os erros de procedimentos operacionais da nossa equipe de manutenção autônoma?
  • Qual a qualidade das nossas análises do MASP?
  • Quais os projetos de Kaizen podem ser implementados?
  • Como está a nossa política de manutenção?

Observamos que as barreiras são medidas de proteção (defesas), que funcionam com anteparos para evitar que os erros e defeitos se de propaguem e se transformem em falha.

Avaliando os conceitos discutidos anteriormente, das megatendências da tecnologia para a próxima década das organizações industriais, os conceitos de confiabilidade, gestão de ativos fixos e humanos, bem como a profundidade de defesa das barreiras que levam à falha, podem ser aplicadas em tudo que temos visto e ouvido em relação à causa raiz e ações preventivas do coronavírus-covid-19?

O mundo das organizações como o conhecemos antes da chegada do covid-19, nunca mais será o mesmo, a sociedade pós-coronavírus pode ser a oportunidade para criar padrões melhores de comportamento e reorientar boa parte da organização produtiva da indústria, pois os processos e as pessoas não serão as mesmas, bem como a competitividade de mercado.

Além do impacto negativo de uma crise econômica no mercado, o covid-19 apresenta desafios adicionais para os ativos humanos das empresa, que são as pessoas da área industrial – medo do próprio vírus, sofrimento coletivo, distanciamento físico prolongado e isolamento social associado – que irão compor o impacto em nossa psique coletiva.

É necessário construir o planejamento estratégico para o retorno das empresas às suas atividades “normais”, como a proposta de implantar um Sistema de Excelência Operacional pós-coronavírus, como base norteadora das ações da organização, tendo entre outros, os seguintes objetivos:

  1. Padrão de todas as pessoas e áreas da empresa com foco do cliente.
  2. A inovação e melhoria contínua como meio para atingir o objetivo anterior.
  3. Treinar as equipes para desenvolver novas habilidades para os projetos de operadores multifuncionais (polivalência de função).
  4. Desenvolver uma nova linhagem de líderes, como fala Mike Walsh em seu livro The Algorithmic Leader, de lideranças algorítmicas, adaptadas com sucesso ao novo processo de tomada de decisão, pós coronavírus, com estilo de gestão focada nas pessoas e sua produção criativa para as complexidades da era das máquinas.

No pós-coronavírus e a melhoria contínua industrial, as palavras e as imagens que devemos ter para a nova liderança industrial é ser ícones de resiliência e preocupado com as pessoas da organização.

Você pode sonhar, criar, desenhar e construir o lugar mais maravilhoso do mundo. Mas é necessário ter pessoas para transformar seu sonho em realidade. (Walt Disney)
 

Em artigo do “novo mundo pós-pandemia”, a revista Exame de abril, questiona:

  • Qual será realmente o mundo pós-coronavírus?
  • Que lições teremos aprendido?
  • Como passaremos a lidar com a saúde e qualidade de vida?
  • Como ficarão aspectos do cotidiano, como as relações de afeto, o mercado de consumo, as questões de espiritualidade?

O resultado vai depender de nossa compreensão dos acontecimentos, dos posicionamentos da sociedade civil, das atitudes socialmente responsáveis das empresas, dos caminhos adotados pelos governantes. Em resumo: vai depender de nós.

 

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